Voltei. Estava com saudades de mim? Hoje eu vim falar sobre relacionamentos. Faz um mês que acompanhei o início de sua amizade com Germain e o ápice dela, quando ele foi ti buscou no asilo, mesmo assim não esqueci essa relação tão bonita.
Acredito Margueritte, que você e Germain se doaram, permitiram que um entrasse no íntimo do outro, se permitam conhecer na intimidade, mesmo que as conversas tratassem de histórias e livros, contaram suas histórias e construiram um carinho.
O que eu tenho visto Margueritte, são relacionamentos mecanizados. Hoje em dia, as conversas fluem em sites de relacionamento e aplicativos de celular. Admito que já fiquei em uma sala acompanhada de amigas e todas olhavam o aparelho, atitude que não acontecia a pouco tempo atrás quando conversava, ria e brincava falando pessoalmente com todas elas.
Tenho a impressão que estamos desaprendendo a falar, Margueritte? Expressamos nossos sentimentos e emoções através de emoticons :/ Será que os filmes como Eu, Robô adivinharam que as máquinas assumiriam o comando, mas, não imaginaram fim tão terrível para a raça humana? Qual, você deve estar se perguntando? Acredito, querida, que os homens se transformarão em robôs, já que aparelhos eletrônicos têm se tornado extensão do nosso corpo.
Além disso, tenho presenciado e já aconteceu comigo, pessoas que conversamos loucamente em aplicativos e redes sociais, porém, quando nos encontramos na vida real, fica um clima de constrangimento, parece que os relacionamentos só conseguem evoluir quando nos escondemos atrás de telas. Onde isso vai parar?
E pior, não podemos pensar que isso é culpa dos smartphones, na verdade, conheço pessoas que sempre interagiram com o mundo real com um pé no virtual, são pessoas que até participavam de conversas pessoalmente, mas, sempre mandando mensagem, sempre olhando a tela do celular. A impressão é que aquelas pessoas ao redor não bastam, o tempo urge e necessitamos nos comunicar com todo mundo ao mesmo tempo.
Sabe qual a consequência disso, Margueritte? Relações superficiais. Conhecemos e conversamos, mas, não criamos laços, não permitimos a intimidade. Posso falar todas as tardes com uma pessoa e não conhecê-la ou ela não me conhecer, mesmo que eu conte episódios esporádicos de uma vida, estarei me escondendo em um muro de relatos vazios e muitas vezes engraçados. A risada é a melhor capa da invisibilidade, além disso posso muito bem narra algo de minha vida atribuindo a novos personagens. Os textos também tem esse efeito, quando eu assino com pseudônimos ou pego uma história minha, adiciono alguns fatos e mudo os nomes. Nesse momento, só quem realmente nos conhece, vai nos descobrir nas linhas, vai nos encontrar no que não foi dito.
Por outro lado, acredito que esses relacionamentos vazios são resultado de um não relacionamento conosco, nós não somos boas companhias para nós, preferimos ficar com pessoas que não nos acrescentam em nada que acompanhados de nós, contradizemos o ditado de que é melhor ficar sozinho do que mal acompanhado, não nos suportamos, não refletimos nossos atos, pensamentos e desejos, mecanizamos a rotina e não conseguimos nos entregar para o outro porque não estamos entregue a nós. Como podemos nos deixar compreender se não nos compreendemos? Como podemos nos deixar conhecer se não nos conhecemos?
É, Margueritte, está faltando humanização no ser humano, pois, se antes o Naturalismo animalizava o homem, agora, na contemporaneidade, nós nos automecanizamos. Por isso, admiro tanto sua amizade com Germain, nela transborda humanidade.
Querida, acho que terminei repetindo o assunto da carta anterior, né? Se é o caso, desculpe-me.
Com afeto,
Ana.
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