quinta-feira, 19 de junho de 2014

As crianças...

Um casal entrou e sentou no banco. As crianças que dormiam perto se levantaram. O casal apaixonado invadira sua casa, pisara em sua cama, tirara sua privacidade.
O casal viu as crianças e não as enxergou. Mini-marginais, pensaram, e esqueceram que ser marginal é estar à margem da sociedade, logo, Jesus era um marginal, também.
As crianças levantaram e foram para o seu banheiro. Lá estavam três amigas sentadas em outro banco. Novamente, as crianças não tinham mais privacidade, a fonte estava ocupada, a luz impedia que eles retirassem a roupa, haviam invadido seu banheiro, as amigas admiravam seu chuveiro. Lavaram o rosto.
Dois amigos pegavam frutas nas árvores. As crianças, quando chegaram lá, não se aproximaram, ficaram pegando as frutas do chão, dividindo os restos com os pássaros. Os amigos retiraram sua alimentação, invadiram sua cozinha, roubaram os alimentos de sua despensa.
Passaram jovens com uniforme e mochila, mas, não foram para a escola e ficaram em um dos bancos. Mais uma vez, retiraram sua vaga, usurparam sua oportunidade, invadiram seu futuro.
As crianças não dormiram direito com o barulho da cidade, não tomaram banho devido a hipocrisia da sociedade com a nudez, não se alimentaram porque lhe foram dados restos, não foram para escola porque não tinham documentos. As crianças estavam insones, sujas, famintas, não eram consideradas gente e por isso, foram em busca da única opção que lhe foram dadas: As crianças roubaram todos que invadiram sua casa e tomaram seu futuro, dominaram aquela praça que era seu lar até que o Estado que tanto as renegou, finalmente, as enxergaram, taxaram-as de mini-marginais e as levaram para reformatórios. Finalmente, as crianlas tinham cama, chuveiro, alimentos e escola, mas continuam sem respeito e sofriam com saudades de sua liberdade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário