quarta-feira, 30 de abril de 2014

Pernambunaval



sou mameluco

bonecos gigantes
galo da madrugada

samba frevo
sombrinha

madrugou o sanfoneiro

alegoria

vejam sonhar
ritmos nordestinos

inteiro
movimento coreográfico
confiança arrebentando

colorido
abre a sombrinha
vida brasileira

Parte II
vida brasileira
inteiro movimento coreográfico

abre a sombrinha
madrugou o sanfoneiro

sombrinha
alegoria
colorido


vejam sonhar
ritmos nordestinos

samba frevo
galo da madrugada
bonecos gigantes

sou mameluco

terça-feira, 29 de abril de 2014

Elas (não) morrem



Ela estava saindo do trabalho, com fone de ouvido, alheia ao mundo, vendo sem enxergar as pessoas ao redor, o pensamento vazio... De repente algo chamou sua atenção, quando focou a visão, percebeu que um carro estava em sua direção, o farol alto demais ofuscava seus olhos, seu raciocínio paralisou de medo e susto, antes que tomasse qualquer atitude, foi arremessada pelo impacto da alta velocidade do automóvel.
Dentro do carro, a motorista também estava desacordada, o veículo após o atropelamento, colidiu em um poste. Antes do acidente, a mulher ouvia música e olhara por um único segundo para o lado que pensou que avistara um conhecido, então, ao retomar à pista,  percebeu aquela garota e, pior, que o acidente era quase inevitável, por isso, tentou desviar o quanto pode, mas, o máximo que conseguiu foi mirar no muro, após a batida.
Uma senhora com sua filha assistiu toda a cena e ligou, imediatamente, para a ambulância... Quando o socorro chegou, as acidentadas continuavam inconscientes e foram encaminhadas ao hospital mais próximo.
Já na emergência, a pedestre acordou e declarou seu nome: Margarida. Os médicos olharam os documentos da motorista e ela se chamava Margarida. A primeira era sete anos mais nova que a outra.
A jovem voltou a adormecer e teve pesadelos, surgiu em sua mente o momento que foi chamada de leviana e destruidora de amor quando foi descoberto seu romance com um rapaz comprometido. A dor excruciante do momento revivido misturava-se com as dores do atropelamento. Voltou a abrir os olhos, urrava de dor, mas, não conseguia distinguir o que machucava mais, as chagas no coração ou hematomas externos. O sentimento de ser um brinquedo nas mãos de quem amara.
No outro leito, a mulher sonolenta, recordava a última conversa, o último suspiro da esperança, a última tentativa de transformar a situação, o último movimento a que se permitia e na despedida, ela percebera que algo se quebrara, não instantaneamente, mas, enquanto dirigia e repassava todas as palavras ditas, nada seria como antes e não era possível saber como se sentia. A dor dos ferimentos e seu estado de letargia quanto à situação, não havia mais forças para nenhuma das duas lutas, mesmo não sendo de sua essência entregar-se, ela não conseguia reagir.
Ambas eram mulheres fortes, não se deixavam abater, lutavam bravamente contra as circunstâncias, possuíam marcas internas incuráveis e externas que só precisavam de um bom tratamento, eram capazes de sobreviver, porém a condição de conviver com as lembranças, as instigavam a desistir... Nesse mundo em que as lembranças não morrem, morrer era uma boa opção e considerando que ninguém mandava nelas, ignorando o sofrimento dos amigos e familiares, afinal, algo realmente havia sido quebrado para as duas e por isso, se permitiram, simplesmente, ir...


segunda-feira, 28 de abril de 2014

Elas não morrem

Sabe aquela criança que detestava todos os garotos?
Sabe aquela menina que implicava com o menino que gostava?
Sabe aquela garota que descobriu o amor platônico e o ciúme?
Sabe aquela pré-adolescente que escrevia cartas românticas para o amado?
Sabe aquela adolescentezinha que pensava que namorar era andar de mãos dadas e ficar sem liberdade porque o primeiro namorado a seguia por todo canto?
Sabe aquela adolescente por instinto pediu para ficar com o objeto de desejo e assim deu o primeiro beijo?
Sabe aquela moça que foi esnobada na frente dos amigos e beijou um garoto por vingança?
Sabe aquela jovem que pegou dois em uma festa porque o cara que gostava tentou ficar com sua melhor amiga?
Sabe aquela pessoa que foi chamada de rapariga por ter se apaixonado perdidamente por um rapaz comprometido?
Sabe aquela mulher que desistiu de amar, desistiu do amor e resiste solenemente a se entregar novamente?

Pois é, elas não morrem...

Você pode até pensar que uma sobrepõe a outra
Que elas não coexistem
Que é impossível terem formado um ser humano

Incrível, não é?

Imaginar que a criança implicaria
Que a menina descobriria o amor platônico
Que a pré-adolescente pensaria que namorar era andar de mãos dadas
Que a adolescentezinha pediria para ficar com o menino
Que a adolescente esnobada beijaria alguém por vingança
Que a moça pegaria dois em uma festa
Que a jovem seria chamada de rapariga
Que a pessoa desistiria de amar

Dentro da mulher que não se entrega tem a criança, a menina, a garota, a pré-adolescente, a adolescentezinha, a adolescente, a moça, a jovem, a pessoa

A desistência do amor não foi formada por uma decepção
Não surgiu com um amor não correspondido
Não apareceu na primeira briga do casal
No primeiro ciúme,
Na primeira traição

Mas foi processada gradualmente
Enquanto se reinventava
Desde a criança até a mulher
Aquela desistência sempre esteve presente
Mesmo quando os momentos de felicidade a inumdavam
Mesmo quando se sentia amada, desejada

Seus outros eus nunca sumiram

E a menina, a criança, a pré-adolescente, a garota, a adolescentezinha, a moça, a adolescente, a jovem, a mulher, a pessoa

Sempre estiveram ali
Rondando
Nunca foram só uma
Também não são todas ao mesmo tempo

Elas nunca morrem
Mas dormem
Descansam
São ignoradas quando uma delas resolve cuidar da situação

E todas as Margaridas
Anitas
Anastácias
Elisabeths,
M,
F,
Freiras,
Santas,

Podem ter passado para outra dimensão
Mas não morreram

Não há morte quando se influencia
Quando ensina
E aprende
Quando há uma troca tão forte

Por isso há uma guerra de lados
A cebola não é descamada totalmente
Sempre fica alguma camada de proteção

Elas nunca morrem
E se tornam camadas
Protegem a sua própria parte frágil
Não permitem uma amputação entre si
Se alguma morrer
Morrem todas
Ficam incompletas
Imunes
Vulneráveis

Mesmo na eterna guerra feminina
Mesmo uma querendo vencer a outra
Mesmo que a adolescente tente ensinar a mulher
Mesmo que a mulher com sua desistência tenha muito da criança

Desistir do amor é como detestar infantilmente os garotos
Pedir para ficar é igual a se apaixonar por alguém comprometido
Beijar outro por vingança é o mesmo que escrever cartas românticas

A sociedade vê igual
A mal-amada
A rapariga
A romântica

Todas juntas num só ser
Elas nunca morrem

Se dormirem eternamente
Se uma virar ditadora
Se alguma for ignorada

Elas nunca morrem

Um carro,
Um coração partido,
Um tiro,
Não as matam

Não há morte para elas
Pois sempre estarão sob aviso
Qualquer necessidade
Elas surgem

Em sonhos
Em poemas
Em abraços

O mesmo sorriso
Embora estejam em outros sorrisos
Os traumas
Embora forjados por diferentes pessoas
O romantismo que não acaba
O ceticismo que sobrevive
A força que as sufoca

A vontade de gritar
O desejo de se salvar

Aquela ignorada
A que tem o controle
A que descansa
A que luta

Elas não morrem
Estão no mesmo carrossel
A roda gigante funciosa
O cd repete repetidamente

Elas não morrem
E eu continuo aqui
Esperando o ciclo recomeçar
A força de alguma se revigorar
Os acontecimentos a fazerem emergir

Mesmo fingindo não saber esse segredo
Mesmo aparentando acreditar na não coexistência

Eu sei
Elas sabem que eu sei

A pessoa, a jovem, a moça, a adolescente, a adolescentezinha, a pré-adolescente, a garota,a menina, a criança, a mulher

Não morrem
Mas formam um só ser