Bem, existem
coisas fadadas ao fracasso e o meu relacionamento com Bernardo é a
síntese disso. Hoje tenho 24 anos e quando penso no assunto sofro como
há 08 anos. Só conto a partir do momento que nos encontramos, mas tudo
começou muito antes.
Apesar de nunca termos sido namorados, foi com ele
que cheguei mais próximo de um namoro. Contava as horas para falar com
ele na internet, falávamos por telefone, brigávamos e ele mandava
torpedos fofos pedindo perdão e dizendo que não conseguiria ficar sem
mim, ele sabia toda a minha rotina, meus medos, meus anseios, foi a ele
que me mostrei por inteira, que revelei minha alma, sem defesas, sem
disfarces. Com ele não havia insegurança ou vergonha, só uma certeza
louca que não me permitia dizer não, uma inconsequência que bloqueava
qualquer trabalho da minha consciência. Ele me ensinou a confiar em
mim, a acreditar que eu era capaz de fazer alguém se interessar, que era
muito bonita e que, principalmente, eu podia ser amada. Tudo o que ele
me pedisse seria feito sem questionamento, aprendi a correr riscos, a
sentir adrenalina, foi nesse momento que deixei definitivamente a
infância.
Infelizmente, ao acordar do transe, naquele momento em que
percebi que não importava o que eu fizesse ele me deixaria e mesmo sob
os protestos de que era tudo neura da minha cabeça, foi nesse momento
que o sonho se desfez, que me coração se partiu em pedaços
incapazes de serem colados, que o mundo deixou de ser rosa pra ficar
desbotado. Foi aí que eu medi as consequências dos meus atos, que eu
senti vergonha, medo, que fui julgada e me julguei, como Eva no Paraíso
foi nesse momento que percebi que estava nua e procurei me vestir antes
de encontrar o Criador, pois havia acabado de comer a fruta proibida
seduzida pela serpente e conseguido o conhecimento da vida, foi quando
percebi que fui usada todo o tempo, que nunca houve sentimento, que não
havia sido verdadeiramente amada, que não havia passado de um
brinquedinho novo que logo seria trocada pela boneca antiga preferida.
Foi aí que senti raiva, ódio da minha ingenuidade, da minha inocência,
quando decidi que ninguém mais me faria de trouxa outra vez, que não
havia pessoa no mundo que me fizesse derramar tantas lágrimas novamente,
foi quando me questionei, argumentei, neguei, afirmei e sentenciei um
trauma que carregaria pelo resto da vida.
Mesmo assim ele nunca me
provocou sentimentos ruins, só uma saudade, a esperança de que voltaria,
de que tudo não havia passado de um mal entendido. Mas o tempo passou e
as expectativas foram frustradas, parei de o procurar em cada rosto, em
cada boné vinho, parei de pensar nele. Consegui viver na minha clausura
de forma natural, sem perguntar como tudo havia ficado daquele jeito,
permiti a vida me levar e me fechei para os sentimentos, criei uma casca
em mim que me protegeu por bastante tempo do mundo e, principalmente,
daquele eu apresentada a mim através dele. Porém, como diria Cássia
Eller "Deus é um cara gozador, adora brincadeira", o vi na rua e passei
por novo redemoinho de emoções, sofri tudo novamente, revi um sentimento
adormecido e naturalmente me questionei pela volta da paixão
fulminante, pelo que havia me tornado, pelo sofrimento intrínseco e por
ser inegável uma Marisol que divide sua história como antes e após ele.
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