Cara Margueritte,
Ontem, acompanhei, durante 1 hora e 18 minutos, seus encontros com Germain e quero declarar que fiquei encantada. Como uma senhorinha de 95 anos, quase cega e cuja família é só o sobrinho e a esposa me deixou maravilhada? Não pense, Margueritte, que meu encantamento foi influenciado pela pessoa que me indicou. Admito que só acompanhei suas tardes pelo tal amigo.
Não sei se estou louca, mas, seus encontros me lembrou um pouco o próprio. Você trouxe a Germain, o carinho e o afeto que ele não recebia diretamente de sua mãe. As tardes, as leituras, os livros apresentaram a ele um outro mundo de tal forma que a pobre Anette pensou que estava sendo traída. E mesmo eu que gosto de ler e me disponho a cultivar o hábito da leitura, me vejo desafiada a ler novos tipos de livros e até ouvir outros tipos de música devido a ele que da mesma forma que me apresentou a você, me presenteia com livros e me passa músicas, sem perguntar se é o meu estilo ou se preocupar se eu já li, na verdade, tudo é novo, um novo mundo.
Mas, querida Margueritte, não foi sobre isso que vim conversar, outro dia, talvez conversemos mais. Eu vim dialogar sobre os encontros dessa vida.
Você e Germain se encontraram em uma praça e começaram a falar sobre pombos. Deixaram-se conhecer, abriram-se ao outro e criaram vínculos. O que aconteceria se você não tivesse interrompido a contagem do homem até o momento desconhecido? Vou revelar, você não teria conquistado um amigo. Um bom amigo, mesmo que algumas pessoas possam dizer que o sentimento que ele nutriu por você fosse uma transferência do amor materno que era necessário sufocar.
Nesse mundo, onde as pessoas voltaram-se para o celular e ouvem música com fone de ouvido nos transportes públicos, encontros desinteressados e completamente ao acaso são difíceis de ocorrer.
Caso Germain tivesse ouvido sua resposta e ignorado, não sentando ao seu lado, o que aconteceria? Vocês não teriam tido esse encontro de almas, ele não seria desafiado pelos livros, não aprenderia novas palavras, não teria dado asas à sua imaginação.Tudo o que seu professor através de uma metodologia retrógrada inibiu quando ele era criança, você proporcionou a ele na sua fase adulta.
Com a vida agitada contemporânea, não nos permitimos influenciar o outro, damos respostas prontas, passamos pela vida do outro sem deixar marcas, já que ele estava ocupado demais e não nos viu passar. Não temos profundidade nas relações, esquecemos como nos relacionar.
Acho que foi isso que achei bonito em vocês, Margueritte, vocês se permitiram, se permitiram conversar, se permitiram conhecer, se permitiram cativar. Eu classifiquei vocês como um encontro de almas, porque vocês estavam exatamente no parque naquele momento e não estou falando de estar presencialmente. Confesso, que muitas vezes, estive presente, mas, minha mente não estava, meu coração também não e aí não importa quem esteja ao nosso lado e se o assunto é o mais importante do mundo, aquilo "entrará por um ouvido e sairá pelo outro", porque se nem nossa mente ou coração estão naquele momento, o corpo torna-se algo inanimado, sem vida, mesmo que respirando e o que for vivido no máximo gerará um sentimento de dejavú no futuro, mas, não saberemos explicar nem o motivo.
Devo confessar, também, Margueritte, que de início pensei que o tempo dedicado a você seria perdido e muito longo, mas, quando terminou fiquei com o gostinho de quero mais. Gostaria de ter acompanhado mais encontros de vocês, ler junto com você e Germain muitos outros livros. Tenho que dizer, ainda, que a nossa tarde me fez lembrar um projeto que eu li: um curso de inglês proporciona que os alunos pratiquem a fluência da língua inglesa conversando com idosos em abrigos através da internet, porém, dependendo da profundidade dessas conversas uns mil encontros não chegarão a ser um milésimo do que o seu com Germain foi. Admito, existem pessoas na minha vida que eu converso a bastante tempo, temos momentos de compartilhar no pg da igreja e mesmo que eu converse por mais mil anos com as meninas de lá, elas nunca me conhecerão como algumas pessoas que conheço a menos tempo. Tem gente que tem o dom de arrumar brechas em armaduras e penetrar no seu ser e são essas criaturas que, verdadeiramente, nos cativam, como diria o Pequeno Príncipe (que eu não li, desculpe) e que se tornam responsáveis por nós.
Já estou acabando, prometo que ti escreverei mais vezes, mas, antes, gostaria de agradecer, Margueritte, por você com toda sua sutileza e simplicidade ter em tão pouco tempo preenchido uma tarde vazia e minha mente.
Obrigada, Margueritte e Germain (passe esse recado a ele, por favor), por terem ilustrado alguns encontros de alma que eu já tive e pretendo ter por aí.
Com afeto,
Ana.
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