terça-feira, 29 de abril de 2014

Elas (não) morrem



Ela estava saindo do trabalho, com fone de ouvido, alheia ao mundo, vendo sem enxergar as pessoas ao redor, o pensamento vazio... De repente algo chamou sua atenção, quando focou a visão, percebeu que um carro estava em sua direção, o farol alto demais ofuscava seus olhos, seu raciocínio paralisou de medo e susto, antes que tomasse qualquer atitude, foi arremessada pelo impacto da alta velocidade do automóvel.
Dentro do carro, a motorista também estava desacordada, o veículo após o atropelamento, colidiu em um poste. Antes do acidente, a mulher ouvia música e olhara por um único segundo para o lado que pensou que avistara um conhecido, então, ao retomar à pista,  percebeu aquela garota e, pior, que o acidente era quase inevitável, por isso, tentou desviar o quanto pode, mas, o máximo que conseguiu foi mirar no muro, após a batida.
Uma senhora com sua filha assistiu toda a cena e ligou, imediatamente, para a ambulância... Quando o socorro chegou, as acidentadas continuavam inconscientes e foram encaminhadas ao hospital mais próximo.
Já na emergência, a pedestre acordou e declarou seu nome: Margarida. Os médicos olharam os documentos da motorista e ela se chamava Margarida. A primeira era sete anos mais nova que a outra.
A jovem voltou a adormecer e teve pesadelos, surgiu em sua mente o momento que foi chamada de leviana e destruidora de amor quando foi descoberto seu romance com um rapaz comprometido. A dor excruciante do momento revivido misturava-se com as dores do atropelamento. Voltou a abrir os olhos, urrava de dor, mas, não conseguia distinguir o que machucava mais, as chagas no coração ou hematomas externos. O sentimento de ser um brinquedo nas mãos de quem amara.
No outro leito, a mulher sonolenta, recordava a última conversa, o último suspiro da esperança, a última tentativa de transformar a situação, o último movimento a que se permitia e na despedida, ela percebera que algo se quebrara, não instantaneamente, mas, enquanto dirigia e repassava todas as palavras ditas, nada seria como antes e não era possível saber como se sentia. A dor dos ferimentos e seu estado de letargia quanto à situação, não havia mais forças para nenhuma das duas lutas, mesmo não sendo de sua essência entregar-se, ela não conseguia reagir.
Ambas eram mulheres fortes, não se deixavam abater, lutavam bravamente contra as circunstâncias, possuíam marcas internas incuráveis e externas que só precisavam de um bom tratamento, eram capazes de sobreviver, porém a condição de conviver com as lembranças, as instigavam a desistir... Nesse mundo em que as lembranças não morrem, morrer era uma boa opção e considerando que ninguém mandava nelas, ignorando o sofrimento dos amigos e familiares, afinal, algo realmente havia sido quebrado para as duas e por isso, se permitiram, simplesmente, ir...


Nenhum comentário:

Postar um comentário