Ela estava saindo do trabalho,
com fone de ouvido, alheia ao mundo, vendo sem enxergar as pessoas ao redor, o
pensamento vazio... De repente algo chamou sua atenção, quando focou a visão,
percebeu que um carro estava em sua direção, o farol alto demais ofuscava seus
olhos, seu raciocínio paralisou de medo e susto, antes que tomasse qualquer
atitude, foi arremessada pelo impacto da alta velocidade do automóvel.
Dentro do carro, a motorista
também estava desacordada, o veículo após o atropelamento, colidiu em um poste.
Antes do acidente, a mulher ouvia música e olhara por um único segundo para o
lado que pensou que avistara um conhecido, então, ao retomar à pista, percebeu aquela garota e, pior, que o
acidente era quase inevitável, por isso, tentou desviar o quanto pode, mas, o
máximo que conseguiu foi mirar no muro, após a batida.
Uma senhora com sua filha
assistiu toda a cena e ligou, imediatamente, para a ambulância... Quando o
socorro chegou, as acidentadas continuavam inconscientes e foram encaminhadas
ao hospital mais próximo.
Já na emergência, a pedestre
acordou e declarou seu nome: Margarida. Os médicos olharam os documentos da
motorista e ela se chamava Margarida. A primeira era sete anos mais nova que a
outra.
A jovem voltou a adormecer e teve
pesadelos, surgiu em sua mente o momento que foi chamada de leviana e
destruidora de amor quando foi descoberto seu romance com um rapaz
comprometido. A dor excruciante do momento revivido misturava-se com as dores
do atropelamento. Voltou a abrir os olhos, urrava de dor, mas, não conseguia
distinguir o que machucava mais, as chagas no coração ou hematomas externos. O
sentimento de ser um brinquedo nas mãos de quem amara.
No outro leito, a mulher
sonolenta, recordava a última conversa, o último suspiro da esperança, a última
tentativa de transformar a situação, o último movimento a que se permitia e na
despedida, ela percebera que algo se quebrara, não instantaneamente, mas,
enquanto dirigia e repassava todas as palavras ditas, nada seria como antes e
não era possível saber como se sentia. A dor dos ferimentos e seu estado de
letargia quanto à situação, não havia mais forças para nenhuma das duas lutas,
mesmo não sendo de sua essência entregar-se, ela não conseguia reagir.
Ambas eram mulheres fortes, não
se deixavam abater, lutavam bravamente contra as circunstâncias, possuíam
marcas internas incuráveis e externas que só precisavam de um bom tratamento,
eram capazes de sobreviver, porém a condição de conviver com as lembranças, as
instigavam a desistir... Nesse mundo em que as lembranças não morrem, morrer
era uma boa opção e considerando que ninguém mandava nelas, ignorando o
sofrimento dos amigos e familiares, afinal, algo realmente havia sido quebrado
para as duas e por isso, se permitiram, simplesmente, ir...
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