Sabe aquela criança que detestava todos os garotos?
Sabe aquela menina que implicava com o menino que gostava?
Sabe aquela garota que descobriu o amor platônico e o ciúme?
Sabe aquela pré-adolescente que escrevia cartas românticas
para o amado?
Sabe aquela adolescentezinha que pensava que namorar era
andar de mãos dadas e ficar sem liberdade porque o primeiro namorado a seguia
por todo canto?
Sabe aquela adolescente por instinto pediu para ficar com o
objeto de desejo e assim deu o primeiro beijo?
Sabe aquela moça que foi esnobada na frente dos amigos e
beijou um garoto por vingança?
Sabe aquela jovem que pegou dois em uma festa porque o cara
que gostava tentou ficar com sua melhor amiga?
Sabe aquela pessoa que foi chamada de rapariga por ter se
apaixonado perdidamente por um rapaz comprometido?
Sabe aquela mulher que desistiu de amar, desistiu do amor e
resiste solenemente a se entregar novamente?
Pois é, elas não morrem...
Você pode até pensar que uma sobrepõe a outra
Que elas não coexistem
Que é impossível terem formado um ser humano
Incrível, não é?
Imaginar que a criança implicaria
Que a menina descobriria o amor platônico
Que a pré-adolescente pensaria que namorar era andar de mãos
dadas
Que a adolescentezinha pediria para ficar com o menino
Que a adolescente esnobada beijaria alguém por vingança
Que a moça pegaria dois em uma festa
Que a jovem seria chamada de rapariga
Que a pessoa desistiria de amar
Dentro da mulher que não se entrega tem a criança, a menina,
a garota, a pré-adolescente, a adolescentezinha, a adolescente, a moça, a
jovem, a pessoa
A desistência do amor não foi formada por uma decepção
Não surgiu com um amor não correspondido
Não apareceu na primeira briga do casal
No primeiro ciúme,
Na primeira traição
Mas foi processada gradualmente
Enquanto se reinventava
Desde a criança até a mulher
Aquela desistência sempre esteve presente
Mesmo quando os momentos de felicidade a inumdavam
Mesmo quando se sentia amada, desejada
Seus outros eus nunca sumiram
E a menina, a criança, a pré-adolescente, a garota, a
adolescentezinha, a moça, a adolescente, a jovem, a mulher, a pessoa
Sempre estiveram ali
Rondando
Nunca foram só uma
Também não são todas ao mesmo tempo
Elas nunca morrem
Mas dormem
Descansam
São ignoradas quando uma delas resolve cuidar da situação
E todas as Margaridas
Anitas
Anastácias
Elisabeths,
M,
F,
Freiras,
Santas,
Podem ter passado para outra dimensão
Mas não morreram
Não há morte quando se influencia
Quando ensina
E aprende
Quando há uma troca tão forte
Por isso há uma guerra de lados
A cebola não é descamada totalmente
Sempre fica alguma camada de proteção
Elas nunca morrem
E se tornam camadas
Protegem a sua própria parte frágil
Não permitem uma amputação entre si
Se alguma morrer
Morrem todas
Ficam incompletas
Imunes
Vulneráveis
Mesmo na eterna guerra feminina
Mesmo uma querendo vencer a outra
Mesmo que a adolescente tente ensinar a mulher
Mesmo que a mulher com sua desistência tenha muito da
criança
Desistir do amor é como detestar infantilmente os garotos
Pedir para ficar é igual a se apaixonar por alguém
comprometido
Beijar outro por vingança é o mesmo que escrever cartas
românticas
A sociedade vê igual
A mal-amada
A rapariga
A romântica
Todas juntas num só ser
Elas nunca morrem
Se dormirem eternamente
Se uma virar ditadora
Se alguma for ignorada
Elas nunca morrem
Um carro,
Um coração partido,
Um tiro,
Não as matam
Não há morte para elas
Pois sempre estarão sob aviso
Qualquer necessidade
Elas surgem
Em sonhos
Em poemas
Em abraços
O mesmo sorriso
Embora estejam em outros sorrisos
Os traumas
Embora forjados por diferentes pessoas
O romantismo que não acaba
O ceticismo que sobrevive
A força que as sufoca
A vontade de gritar
O desejo de se salvar
Aquela ignorada
A que tem o controle
A que descansa
A que luta
Elas não morrem
Estão no mesmo carrossel
A roda gigante funciosa
O cd repete repetidamente
Elas não morrem
E eu continuo aqui
Esperando o ciclo recomeçar
A força de alguma se revigorar
Os acontecimentos a fazerem emergir
Mesmo fingindo não saber esse segredo
Mesmo aparentando acreditar na não coexistência
Eu sei
Elas sabem que eu sei
A pessoa, a jovem, a moça, a adolescente, a
adolescentezinha, a pré-adolescente, a garota,a menina, a criança, a mulher
Não morrem
Mas formam um só ser
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